terça-feira, 19 de abril de 2011

O baile

Queria viver um punhado de alegria.
De um sorriso, mais um instante.
De uma lágrima, um montante.
Queria dizer das palavras
usando apenas o silêncio.
Caminhar sobre as pernas,
cansadas e eufóricas,
belas.
Queria sentar na beirada,
bem na beira do rio que secou,
e dizer ao meu reflexo que estaria ali,
que já é hora de voltar,
pois o baile já começou.
O baile já começou a acabar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tarde quente

O bater dos copos
em um gostoso bate-papo
com sabor de brigadeiro
e franguinho bem cortado
Ao som de um rock pauleira
ou de um blues enferrujado
Encostadas em enormes almofadas
de um sofá duro, improvisado
Falando alto, na tentativa vã de susssurrar
Confissões e teorias
Não faltarão fantasias
E o que era uma grande saudade
Colocou em pauta o que é a amizade



Como é bom reencontrar os bons e velhos, porém sempre eternos... =)

sábado, 16 de abril de 2011

O tempo que fugiu

O tempo me fugiu,
enquanto estava parada na soleira.
Ele foi escorrendo devagarinho,
silencioso e discreto,
como somente ele é capaz.
Foi-se esgueirando pelas beradas,
fundindo-se à minha sombra.
E quando o sol se pôs,
já não estava mais lá.
Nem o tempo.
Nem a sombra.
Somente eu e a soleira.
E a vaga lembrança,
de que havia algo lá,
mas não soube dizer o quê.
Restou apenas a falta.
E a falta é tudo.
Menos o tempo que fugiu.

Barcos

Que somos nós, pois, senão meros barcos feitos de madeira frágil à deriva das ondas, dos ventos e tempestades? Que somos nós, pois, senão barcos sem rumo, que só têm à frente um imenso horizonte que mal sabemos onde finda? Acima, a imensidão celestial; abaixo, as profundezas do oceano.

Nessa viagem em que consiste nossa existência, muitas vezes distraímo-nos com as várias e inconstantes formas que as nuvens costumam adquirir. Mas e se não houver nuvens? Olhamos para os quatro cantos, mas não existem cantos. É tudo um punhado de nada, um punhado de tudo. Tudo é feito de uma parte do infinito. Mas esta parte é finita ou contínua?

Existem inúmeras perguntas e quase nenhuma resposta. As poucas que existem são acompanhadas por conjunções adverbiais de dúvida.Talvez, se, acaso. Nada certo; nada concreto. A única certeza é a incerteza. A única resposta é a própria pergunta. A descoberta está justamente na procura.

Mania a nossa de querer saber de tudo, saber o motivo de tudo, mesmo que saibamos que o motivo é o de apenas ser, existir, e continuar seguindo, como um barco à deriva. Até parece que gostamos de um pouco de frustração. Perguntamos sobre as coisas que sabemos não haver respostas, e ignoramos aquilo que já nos foi dado. Talvez o fato de não haver cantos, de ser tudo parte do infinito nos enlouqueça. Saber que não há como ser maior que uma parte daquilo tudo, ou mesmo, embolsar e esconder uma parte daquilo que nos deslumbra.

É uma pena saber da ignorância que nos consome. Mal percebemos que somos capazes de “embolsar” tudo isso em um lugar chamado memória, e que não precisamos ser maiores que tudo o que vemos, pois fazemos parte desse tudo. Nós somos a pintura, tudo isso é apenas a moldura.

Vivemos nessa maldita ingratidão. Se estiver tudo calmo, clamamos por sair desse ócio, dessa calmaria tediosa. Mas, se nosso pedido é atendido, e nos vem uma tempestade, de repente a calmaria nos faz falta.

E nessa angústia de questionar, de procurar respostas inexistentes em vão, perdemos a alegria da vida, perdemos o tesouro da descoberta na procura. Perdemos as gaivotas, as estrelas, o Sol, a Lua, os golfinhos e as baleias. Se há alguém conosco dividindo o barco, nos preocupamos tanto com estas manias tolas, que não reparamos na face rosada pelo sol, no sorriso iluminado pelo luar da criatura magnífica que nos acompanha. Pior, nem nos preocupamos em olhar nosso reflexo na água, em questionar nossas atitudes, em nos conhecer. Talvez, se o fizéssemos, estas perguntas minguariam com o tempo. Essa mania de perguntar sobre tudo o que vemos fora é apenas uma maneira de sairmos de nós mesmos e nos vermos com outros olhos para, enfim, tentarmos descobrir sobre a incógnita que mais nos assombra: nós mesmos.

Então, não é mais fácil apenas olhar para o nosso reflexo, ou quem sabe, perguntar à nossa companhia? Mas não, isso é arriscado. Desta forma veremos e ouviremos o que não nos agrada. Assim, nós preferimos buscar pelo caminho mais longo, porque é quase impossível descobrir por ele. Nos enganamos que nesse caso a busca já é o suficiente. E quando nos damos conta da efemeridade de nossa existência, quando sentimos a vida de esvair pela ponta dos dedos, só aí olhamos o nosso reflexo, só aí paramos para ouvir nossa companhia. Mas há um problema: nossos ouvidos estão calejados, nossos olhos já não são os mesmos, e nosso reflexo é isso e tão somente isso, o reflexo do que fomos um dia. Um reflexo castigado pela procura vã, pela ausência das respostas inexistentes. Descobrimos um eu quase sem vida, e por não ter conhecido o outro eu, nos vamos entristecidos por achar que sempre fomos assim.


(Mais pensamentos de uma adolescente... É tão engraçado reler as coisas que escreveu há tanto tempo... )
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sei lá...

Eu disse, quando queria fazer. 
Eu fiz o que não devia dizer. 
Esperei quando devia agir e fugi quando devia apenas ficar.
Ou sei lá. Sei lá. 
Eu simplesmente achei que... 
Achar já supõe algo que não é seu.
Ou que foi, e já perdeu. 
Poderia dizer que pensei... 
E pensar é agir sozinho consigo mesmo. 
E talvez devesse ter sido um pouco mais. 
Eu fiquei, quando deveria ter ido há muito tempo. 
Por quê? 
Bom, eu só quis ficar.
Ou, na verdade, eu só não queria ir... 
deixar ir... 
Não me preocupo com forma. 
Quero escrever, cospir, vomitar, jogar pra cima, 
aqui debaixo. 
E, quem sabe, dizer o que não devia fazer, e que não fiz.
Colocar no papel, na tela, nos ouvidos, ou nos olhos de alguém,
mas de outro alguém. 
Eu só queria não querer ter querido, ter partido. 
Agora a parte que se partiu está pendurada,
não foi arrancada. 
Fica pendendo, meio solta, 
meio presa. 
E só. 
E é só o que tenho a dizer...

domingo, 6 de março de 2011

O Abandono

A cabeça encostada na janela do ônibus coletivo, o olhar perdido em alguma imagem e a mente a vagar por inúmeros lugares, porém, um único rosto se repetia. Sempre a mesma pessoa, as mesmas lembranças. O que realmente aconteceu ou o que era apenas sonho, agora se confundem; “De que adianta, tudo se foi!”.

O rosto está completamente maquiado, e usa óculos escuros, tudo na tentativa de esconder os olhos inchados.Vez ou outra, uma lágrima teimosa insiste em escorrer pelos cantos, mas ela a impede de chegar à maçã do rosto.Os lábios ainda estão inchados e o nariz adquiriu um incrível tom avermelhado.O cabelo, ao contrário do que costuma usar, está solto, para completar o disfarce.

As mãos inquietas variam do cabelo, à bolsa ou mesmo a roçarem nos braços e entre si; seguram um lenço umedecido. Nunca estivera tão abalada, nem mesmo no velório de sua tão querida avó. Alguns se perguntam o porquê daquela moça tão bela estar triste.

Realmente a beleza é um de seus dons, mas ela não a considera uma virtude.”De que adianta ser tão bela? Ele já não acorda ao meu lado...”.

Um metro e setenta e sete de pura elegância. Pernas longas e bem torneadas, cintura acentuada, longos cabelos negros e olhos de um tom esverdeado incomum. Era impossível não ser notada. Quem tivesse a oportunidade de observá-la de perto, e não se prendesse apenas ao seu corpo escultural, veria que era dona de belas mãos; não só belas, como talentosíssimas. Seus quadros eram maravilhosos, e por coincidência, os havia exposto na semana anterior.

Linda, bem sucedida, independente, e agora, só.Ainda não conseguia assimilar os fatos; a carta, as chaves, a cama vazia, o armário onde, um dia, estiveram diversos ternos, calças, cintos...

Três anos, sete meses, treze dias e exatamente quinze horas.Uma vida inteira se foi em uma madrugada, sem ao menos dizer adeus, a não ser por um bilhete escrito atrás de um folheto qualquer: “Sinto muito, não posso mais ficar. Você é maravilhosa, mas não é para mim. Não conseguiria dizer isso olhando nos seus olhos, então, optei por escrever-lhe. Espero que me perdoe. Te amo, Pedro”.

Uma das poucas coisas das quais se recorda, é a festa da noite passada. Ele a acompanhava, estava tudo bem, pelo menos era o que pensava. Chegaram em casa pouco mais de meia noite e foram direto para a cama. Sim; esta noite ele não lhe deu boa noite, tampouco o beijo na testa, mas estavam cansados. Ele esteve distraído a noite toda, na verdade, havia um certo tempo, mas ela pensou que eram apenas negócios.

Agora, estava em um ônibus qualquer, mal leu qual o seu destino. Costumava fazer isso quando precisava ficar só e pensar. Uma mania um tanto quanto estranha, mas que funcionava. Ela precisava refletir, descobrir o porquê, onde tinha errado; depois, o que fazer. Iria atrás dele? Seguiria sem ele?”Como se ele era a minha vida?”.

Haveria outra?” Mas ele nada mencionou no bilhete”, “Onde foi que eu errei, meu Deus?”. Pensou nas últimas semanas, se o havia deixado de lado por causa da exposição, se havia proferido alguma palavra que o ferisse, mas nada encontrou. Não conseguia achar explicação alguma, e isso tornava a dor mais intensa. Sentia-se culpada e vítima. Terá sido um mal entendido? Como saber? O celular está desligado, ou ele não quer atendê-la?

Ela desce no próximo ponto.Vai andando até parar em frente a uma pracinha.Uma estátua no centro chama a sua atenção.A expressão desolada da pobre moça, os ombros caídos.”Será que também foi abandonada?”.

Sentou-se em um banco próximo e ficou a observar as crianças correndo de um lado para o outro.
- Amor, acho que estou preparada para ter um filho. O que acha?
- Acho maravilhoso. Quando para de tomar os remédios?
- Na verdade já parei.
Ele lhe parece desconcertado:
- Por que essa cara, algum problema?
- Não, não; achei que só o faria depois desta conversa. Está tudo bem, querida.

Após a pequena viagem ao passado, pegou a bolsa, retirou um envelope, e as lágrimas foram embaladas por gemidos profundos e dolorosos. Ao retirar o conteúdo, logo se percebia que se tratava de algum exame, mais precisamente um exame de gravidez.O resultado era positivo; ela estava grávida, e só. Sua mão repousava sobre a barriga, e com a voz embargada disse:
- Fique tranqüilo, meu bem, a mamãe está aqui.Não irei te abandonar.Você será a minha vida agora, e só para ti hei de viver!

(Creio que não escreverei nada até postar quase todos os antigos. =/ Bom, este foi o meu segundo.)

sábado, 5 de março de 2011

Votos Matrimoniais

Eu sei que encontrarei pessoas mais interessantes, mais bonitas, mais inteligentes, mais elegantes e mais divertidas que você, durante a minha vida.Sei que, talvez, muitas destas pessoas se interessarão por mim, e quem sabe até eu por elas.Sei que isso também acontecerá com você.

Eu sei que não sou perfeita, e que a perfeição também passa longe de ti.Sei também, que discordamos em diversos aspectos, e a tendência é esta divergência aumentar.

Eu sei que sou uma chata, e que, às vezes, você se tornará insuportável.Talvez cheguem momentos em que eu não suporte ouvir a sua voz, nem você a minha.Talvez cheguem momentos em que nós só saibamos ferir um ao outro com palavras.

Eu sei que ficarei irritada quando encontrar a toalha molhada em cima da cama, e que sentirá o mesmo quando eu deixar minha roupa íntima pendurada no banheiro.Sei que colocará defeito em uma roupa ou no jantar, e que eu reclamarei que não me dá a atenção que necessito.

Eu sei que sentirei ciúmes daquela colega de trabalho super elegante, e que você não sentirá nem um pouco de satisfação ao saber que fui cantada por aquele homem que te mata de ciúmes.Sei que discutiremos muito no que diz respeito à criação de nossos filhos e às despesas da casa.Sei que haverá dias em que dormirá no sofá, ou mesmo na cama, mas sem pronunciarmos uma palavra sequer.

Eu sei que você me dirá coisas que marcarão profundamente, e eu também o farei.Sei que faremos muitas coisas ruins, porém, sei que juntos, viveremos coisas maravilhosas.

Apesar de tudo, apesar de saber destas coisas que disse e de outras milhares que ocultei, uma coisa eu sei e que vale acima de todas as outras: Eu te amo.

Hoje, aqui, na frente de todos os presentes, não estou apenas dizendo “Sim”; estou fazendo a escolha de te escolher para ser a minha companhia em todos os dias de minha vida.Desta forma, prometo amar-te, mesmo magoada.Prometo esperar-te, mesmo sem forças.Prometo ser sua e somente sua.Sua companheira, sua amiga, sua confidente, sua conselheira, sua mulher.

Prometo estar contigo em toda e qualquer situação, haja o que houver, porque hoje, eu faço a escolha de me tornar um só corpo, uma só alma com você, que é a pessoa que escolhi para compartilhar, para andar ao lado, para dividir e somar.Tu és a pessoa que meu coração escolheu para amar, desejar, querer ao lado em todos os momentos, sejam eles bons, ou ruins.

Sim, a minha resposta é sim.E esta será a minha resposta até o fim de meus dias!


(Tinha de postar esse! Escrevi há quase 5 anos, e juro, nunca foi tão verdadeiro! Até me surpreendi ao lê-lo novamente. A diferença é que agora tem destinatário. =D)