sábado, 16 de abril de 2011

Barcos

Que somos nós, pois, senão meros barcos feitos de madeira frágil à deriva das ondas, dos ventos e tempestades? Que somos nós, pois, senão barcos sem rumo, que só têm à frente um imenso horizonte que mal sabemos onde finda? Acima, a imensidão celestial; abaixo, as profundezas do oceano.

Nessa viagem em que consiste nossa existência, muitas vezes distraímo-nos com as várias e inconstantes formas que as nuvens costumam adquirir. Mas e se não houver nuvens? Olhamos para os quatro cantos, mas não existem cantos. É tudo um punhado de nada, um punhado de tudo. Tudo é feito de uma parte do infinito. Mas esta parte é finita ou contínua?

Existem inúmeras perguntas e quase nenhuma resposta. As poucas que existem são acompanhadas por conjunções adverbiais de dúvida.Talvez, se, acaso. Nada certo; nada concreto. A única certeza é a incerteza. A única resposta é a própria pergunta. A descoberta está justamente na procura.

Mania a nossa de querer saber de tudo, saber o motivo de tudo, mesmo que saibamos que o motivo é o de apenas ser, existir, e continuar seguindo, como um barco à deriva. Até parece que gostamos de um pouco de frustração. Perguntamos sobre as coisas que sabemos não haver respostas, e ignoramos aquilo que já nos foi dado. Talvez o fato de não haver cantos, de ser tudo parte do infinito nos enlouqueça. Saber que não há como ser maior que uma parte daquilo tudo, ou mesmo, embolsar e esconder uma parte daquilo que nos deslumbra.

É uma pena saber da ignorância que nos consome. Mal percebemos que somos capazes de “embolsar” tudo isso em um lugar chamado memória, e que não precisamos ser maiores que tudo o que vemos, pois fazemos parte desse tudo. Nós somos a pintura, tudo isso é apenas a moldura.

Vivemos nessa maldita ingratidão. Se estiver tudo calmo, clamamos por sair desse ócio, dessa calmaria tediosa. Mas, se nosso pedido é atendido, e nos vem uma tempestade, de repente a calmaria nos faz falta.

E nessa angústia de questionar, de procurar respostas inexistentes em vão, perdemos a alegria da vida, perdemos o tesouro da descoberta na procura. Perdemos as gaivotas, as estrelas, o Sol, a Lua, os golfinhos e as baleias. Se há alguém conosco dividindo o barco, nos preocupamos tanto com estas manias tolas, que não reparamos na face rosada pelo sol, no sorriso iluminado pelo luar da criatura magnífica que nos acompanha. Pior, nem nos preocupamos em olhar nosso reflexo na água, em questionar nossas atitudes, em nos conhecer. Talvez, se o fizéssemos, estas perguntas minguariam com o tempo. Essa mania de perguntar sobre tudo o que vemos fora é apenas uma maneira de sairmos de nós mesmos e nos vermos com outros olhos para, enfim, tentarmos descobrir sobre a incógnita que mais nos assombra: nós mesmos.

Então, não é mais fácil apenas olhar para o nosso reflexo, ou quem sabe, perguntar à nossa companhia? Mas não, isso é arriscado. Desta forma veremos e ouviremos o que não nos agrada. Assim, nós preferimos buscar pelo caminho mais longo, porque é quase impossível descobrir por ele. Nos enganamos que nesse caso a busca já é o suficiente. E quando nos damos conta da efemeridade de nossa existência, quando sentimos a vida de esvair pela ponta dos dedos, só aí olhamos o nosso reflexo, só aí paramos para ouvir nossa companhia. Mas há um problema: nossos ouvidos estão calejados, nossos olhos já não são os mesmos, e nosso reflexo é isso e tão somente isso, o reflexo do que fomos um dia. Um reflexo castigado pela procura vã, pela ausência das respostas inexistentes. Descobrimos um eu quase sem vida, e por não ter conhecido o outro eu, nos vamos entristecidos por achar que sempre fomos assim.


(Mais pensamentos de uma adolescente... É tão engraçado reler as coisas que escreveu há tanto tempo... )
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Um comentário:

  1. Barcos em eterno movimento, no vai e vem de ondas... Assim vai a vida, entregue ao vento...

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