terça-feira, 19 de abril de 2011

O baile

Queria viver um punhado de alegria.
De um sorriso, mais um instante.
De uma lágrima, um montante.
Queria dizer das palavras
usando apenas o silêncio.
Caminhar sobre as pernas,
cansadas e eufóricas,
belas.
Queria sentar na beirada,
bem na beira do rio que secou,
e dizer ao meu reflexo que estaria ali,
que já é hora de voltar,
pois o baile já começou.
O baile já começou a acabar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Tarde quente

O bater dos copos
em um gostoso bate-papo
com sabor de brigadeiro
e franguinho bem cortado
Ao som de um rock pauleira
ou de um blues enferrujado
Encostadas em enormes almofadas
de um sofá duro, improvisado
Falando alto, na tentativa vã de susssurrar
Confissões e teorias
Não faltarão fantasias
E o que era uma grande saudade
Colocou em pauta o que é a amizade



Como é bom reencontrar os bons e velhos, porém sempre eternos... =)

sábado, 16 de abril de 2011

O tempo que fugiu

O tempo me fugiu,
enquanto estava parada na soleira.
Ele foi escorrendo devagarinho,
silencioso e discreto,
como somente ele é capaz.
Foi-se esgueirando pelas beradas,
fundindo-se à minha sombra.
E quando o sol se pôs,
já não estava mais lá.
Nem o tempo.
Nem a sombra.
Somente eu e a soleira.
E a vaga lembrança,
de que havia algo lá,
mas não soube dizer o quê.
Restou apenas a falta.
E a falta é tudo.
Menos o tempo que fugiu.

Barcos

Que somos nós, pois, senão meros barcos feitos de madeira frágil à deriva das ondas, dos ventos e tempestades? Que somos nós, pois, senão barcos sem rumo, que só têm à frente um imenso horizonte que mal sabemos onde finda? Acima, a imensidão celestial; abaixo, as profundezas do oceano.

Nessa viagem em que consiste nossa existência, muitas vezes distraímo-nos com as várias e inconstantes formas que as nuvens costumam adquirir. Mas e se não houver nuvens? Olhamos para os quatro cantos, mas não existem cantos. É tudo um punhado de nada, um punhado de tudo. Tudo é feito de uma parte do infinito. Mas esta parte é finita ou contínua?

Existem inúmeras perguntas e quase nenhuma resposta. As poucas que existem são acompanhadas por conjunções adverbiais de dúvida.Talvez, se, acaso. Nada certo; nada concreto. A única certeza é a incerteza. A única resposta é a própria pergunta. A descoberta está justamente na procura.

Mania a nossa de querer saber de tudo, saber o motivo de tudo, mesmo que saibamos que o motivo é o de apenas ser, existir, e continuar seguindo, como um barco à deriva. Até parece que gostamos de um pouco de frustração. Perguntamos sobre as coisas que sabemos não haver respostas, e ignoramos aquilo que já nos foi dado. Talvez o fato de não haver cantos, de ser tudo parte do infinito nos enlouqueça. Saber que não há como ser maior que uma parte daquilo tudo, ou mesmo, embolsar e esconder uma parte daquilo que nos deslumbra.

É uma pena saber da ignorância que nos consome. Mal percebemos que somos capazes de “embolsar” tudo isso em um lugar chamado memória, e que não precisamos ser maiores que tudo o que vemos, pois fazemos parte desse tudo. Nós somos a pintura, tudo isso é apenas a moldura.

Vivemos nessa maldita ingratidão. Se estiver tudo calmo, clamamos por sair desse ócio, dessa calmaria tediosa. Mas, se nosso pedido é atendido, e nos vem uma tempestade, de repente a calmaria nos faz falta.

E nessa angústia de questionar, de procurar respostas inexistentes em vão, perdemos a alegria da vida, perdemos o tesouro da descoberta na procura. Perdemos as gaivotas, as estrelas, o Sol, a Lua, os golfinhos e as baleias. Se há alguém conosco dividindo o barco, nos preocupamos tanto com estas manias tolas, que não reparamos na face rosada pelo sol, no sorriso iluminado pelo luar da criatura magnífica que nos acompanha. Pior, nem nos preocupamos em olhar nosso reflexo na água, em questionar nossas atitudes, em nos conhecer. Talvez, se o fizéssemos, estas perguntas minguariam com o tempo. Essa mania de perguntar sobre tudo o que vemos fora é apenas uma maneira de sairmos de nós mesmos e nos vermos com outros olhos para, enfim, tentarmos descobrir sobre a incógnita que mais nos assombra: nós mesmos.

Então, não é mais fácil apenas olhar para o nosso reflexo, ou quem sabe, perguntar à nossa companhia? Mas não, isso é arriscado. Desta forma veremos e ouviremos o que não nos agrada. Assim, nós preferimos buscar pelo caminho mais longo, porque é quase impossível descobrir por ele. Nos enganamos que nesse caso a busca já é o suficiente. E quando nos damos conta da efemeridade de nossa existência, quando sentimos a vida de esvair pela ponta dos dedos, só aí olhamos o nosso reflexo, só aí paramos para ouvir nossa companhia. Mas há um problema: nossos ouvidos estão calejados, nossos olhos já não são os mesmos, e nosso reflexo é isso e tão somente isso, o reflexo do que fomos um dia. Um reflexo castigado pela procura vã, pela ausência das respostas inexistentes. Descobrimos um eu quase sem vida, e por não ter conhecido o outro eu, nos vamos entristecidos por achar que sempre fomos assim.


(Mais pensamentos de uma adolescente... É tão engraçado reler as coisas que escreveu há tanto tempo... )
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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sei lá...

Eu disse, quando queria fazer. 
Eu fiz o que não devia dizer. 
Esperei quando devia agir e fugi quando devia apenas ficar.
Ou sei lá. Sei lá. 
Eu simplesmente achei que... 
Achar já supõe algo que não é seu.
Ou que foi, e já perdeu. 
Poderia dizer que pensei... 
E pensar é agir sozinho consigo mesmo. 
E talvez devesse ter sido um pouco mais. 
Eu fiquei, quando deveria ter ido há muito tempo. 
Por quê? 
Bom, eu só quis ficar.
Ou, na verdade, eu só não queria ir... 
deixar ir... 
Não me preocupo com forma. 
Quero escrever, cospir, vomitar, jogar pra cima, 
aqui debaixo. 
E, quem sabe, dizer o que não devia fazer, e que não fiz.
Colocar no papel, na tela, nos ouvidos, ou nos olhos de alguém,
mas de outro alguém. 
Eu só queria não querer ter querido, ter partido. 
Agora a parte que se partiu está pendurada,
não foi arrancada. 
Fica pendendo, meio solta, 
meio presa. 
E só. 
E é só o que tenho a dizer...

domingo, 6 de março de 2011

O Abandono

A cabeça encostada na janela do ônibus coletivo, o olhar perdido em alguma imagem e a mente a vagar por inúmeros lugares, porém, um único rosto se repetia. Sempre a mesma pessoa, as mesmas lembranças. O que realmente aconteceu ou o que era apenas sonho, agora se confundem; “De que adianta, tudo se foi!”.

O rosto está completamente maquiado, e usa óculos escuros, tudo na tentativa de esconder os olhos inchados.Vez ou outra, uma lágrima teimosa insiste em escorrer pelos cantos, mas ela a impede de chegar à maçã do rosto.Os lábios ainda estão inchados e o nariz adquiriu um incrível tom avermelhado.O cabelo, ao contrário do que costuma usar, está solto, para completar o disfarce.

As mãos inquietas variam do cabelo, à bolsa ou mesmo a roçarem nos braços e entre si; seguram um lenço umedecido. Nunca estivera tão abalada, nem mesmo no velório de sua tão querida avó. Alguns se perguntam o porquê daquela moça tão bela estar triste.

Realmente a beleza é um de seus dons, mas ela não a considera uma virtude.”De que adianta ser tão bela? Ele já não acorda ao meu lado...”.

Um metro e setenta e sete de pura elegância. Pernas longas e bem torneadas, cintura acentuada, longos cabelos negros e olhos de um tom esverdeado incomum. Era impossível não ser notada. Quem tivesse a oportunidade de observá-la de perto, e não se prendesse apenas ao seu corpo escultural, veria que era dona de belas mãos; não só belas, como talentosíssimas. Seus quadros eram maravilhosos, e por coincidência, os havia exposto na semana anterior.

Linda, bem sucedida, independente, e agora, só.Ainda não conseguia assimilar os fatos; a carta, as chaves, a cama vazia, o armário onde, um dia, estiveram diversos ternos, calças, cintos...

Três anos, sete meses, treze dias e exatamente quinze horas.Uma vida inteira se foi em uma madrugada, sem ao menos dizer adeus, a não ser por um bilhete escrito atrás de um folheto qualquer: “Sinto muito, não posso mais ficar. Você é maravilhosa, mas não é para mim. Não conseguiria dizer isso olhando nos seus olhos, então, optei por escrever-lhe. Espero que me perdoe. Te amo, Pedro”.

Uma das poucas coisas das quais se recorda, é a festa da noite passada. Ele a acompanhava, estava tudo bem, pelo menos era o que pensava. Chegaram em casa pouco mais de meia noite e foram direto para a cama. Sim; esta noite ele não lhe deu boa noite, tampouco o beijo na testa, mas estavam cansados. Ele esteve distraído a noite toda, na verdade, havia um certo tempo, mas ela pensou que eram apenas negócios.

Agora, estava em um ônibus qualquer, mal leu qual o seu destino. Costumava fazer isso quando precisava ficar só e pensar. Uma mania um tanto quanto estranha, mas que funcionava. Ela precisava refletir, descobrir o porquê, onde tinha errado; depois, o que fazer. Iria atrás dele? Seguiria sem ele?”Como se ele era a minha vida?”.

Haveria outra?” Mas ele nada mencionou no bilhete”, “Onde foi que eu errei, meu Deus?”. Pensou nas últimas semanas, se o havia deixado de lado por causa da exposição, se havia proferido alguma palavra que o ferisse, mas nada encontrou. Não conseguia achar explicação alguma, e isso tornava a dor mais intensa. Sentia-se culpada e vítima. Terá sido um mal entendido? Como saber? O celular está desligado, ou ele não quer atendê-la?

Ela desce no próximo ponto.Vai andando até parar em frente a uma pracinha.Uma estátua no centro chama a sua atenção.A expressão desolada da pobre moça, os ombros caídos.”Será que também foi abandonada?”.

Sentou-se em um banco próximo e ficou a observar as crianças correndo de um lado para o outro.
- Amor, acho que estou preparada para ter um filho. O que acha?
- Acho maravilhoso. Quando para de tomar os remédios?
- Na verdade já parei.
Ele lhe parece desconcertado:
- Por que essa cara, algum problema?
- Não, não; achei que só o faria depois desta conversa. Está tudo bem, querida.

Após a pequena viagem ao passado, pegou a bolsa, retirou um envelope, e as lágrimas foram embaladas por gemidos profundos e dolorosos. Ao retirar o conteúdo, logo se percebia que se tratava de algum exame, mais precisamente um exame de gravidez.O resultado era positivo; ela estava grávida, e só. Sua mão repousava sobre a barriga, e com a voz embargada disse:
- Fique tranqüilo, meu bem, a mamãe está aqui.Não irei te abandonar.Você será a minha vida agora, e só para ti hei de viver!

(Creio que não escreverei nada até postar quase todos os antigos. =/ Bom, este foi o meu segundo.)

sábado, 5 de março de 2011

Votos Matrimoniais

Eu sei que encontrarei pessoas mais interessantes, mais bonitas, mais inteligentes, mais elegantes e mais divertidas que você, durante a minha vida.Sei que, talvez, muitas destas pessoas se interessarão por mim, e quem sabe até eu por elas.Sei que isso também acontecerá com você.

Eu sei que não sou perfeita, e que a perfeição também passa longe de ti.Sei também, que discordamos em diversos aspectos, e a tendência é esta divergência aumentar.

Eu sei que sou uma chata, e que, às vezes, você se tornará insuportável.Talvez cheguem momentos em que eu não suporte ouvir a sua voz, nem você a minha.Talvez cheguem momentos em que nós só saibamos ferir um ao outro com palavras.

Eu sei que ficarei irritada quando encontrar a toalha molhada em cima da cama, e que sentirá o mesmo quando eu deixar minha roupa íntima pendurada no banheiro.Sei que colocará defeito em uma roupa ou no jantar, e que eu reclamarei que não me dá a atenção que necessito.

Eu sei que sentirei ciúmes daquela colega de trabalho super elegante, e que você não sentirá nem um pouco de satisfação ao saber que fui cantada por aquele homem que te mata de ciúmes.Sei que discutiremos muito no que diz respeito à criação de nossos filhos e às despesas da casa.Sei que haverá dias em que dormirá no sofá, ou mesmo na cama, mas sem pronunciarmos uma palavra sequer.

Eu sei que você me dirá coisas que marcarão profundamente, e eu também o farei.Sei que faremos muitas coisas ruins, porém, sei que juntos, viveremos coisas maravilhosas.

Apesar de tudo, apesar de saber destas coisas que disse e de outras milhares que ocultei, uma coisa eu sei e que vale acima de todas as outras: Eu te amo.

Hoje, aqui, na frente de todos os presentes, não estou apenas dizendo “Sim”; estou fazendo a escolha de te escolher para ser a minha companhia em todos os dias de minha vida.Desta forma, prometo amar-te, mesmo magoada.Prometo esperar-te, mesmo sem forças.Prometo ser sua e somente sua.Sua companheira, sua amiga, sua confidente, sua conselheira, sua mulher.

Prometo estar contigo em toda e qualquer situação, haja o que houver, porque hoje, eu faço a escolha de me tornar um só corpo, uma só alma com você, que é a pessoa que escolhi para compartilhar, para andar ao lado, para dividir e somar.Tu és a pessoa que meu coração escolheu para amar, desejar, querer ao lado em todos os momentos, sejam eles bons, ou ruins.

Sim, a minha resposta é sim.E esta será a minha resposta até o fim de meus dias!


(Tinha de postar esse! Escrevi há quase 5 anos, e juro, nunca foi tão verdadeiro! Até me surpreendi ao lê-lo novamente. A diferença é que agora tem destinatário. =D)

Arte

Arte
Reparte
Uma parte
Do encarte
Arte sem Arte
Enfarte
Parte da
Arte
É Arte
Arte da
Parte
Uma parte
Da Arte
Enfarte
Toda Arte
Encarte
Arte da Arte
Arte pela
Arte de
Fazer Arte
Arte pela
Arte de
Fazer parte
Da Arte
Senão
Enfarte
Arte é
Tudo é
Arte
Parte
Reparte
Encarte
Enfarte
Por fim
A Arte

(Já disse que poesia não é meu forte. =P Só de lembrança do Terceirão! =D)

Meu verdadeiro amor



Sempre me perguntei sobre essa tal história de Amor. O que é ele? Ou quem é ele? Confesso que só depois de muitos anos descobri o meu verdadeiro amor. Todavia tive de conhecer inúmeros pseudo-amores para notá-la. Sim, notá-la. Na verdade, ela quase sempre esteve comigo, mas eu jamais havia notado. Acho que o verdadeiro amor é sempre assim.

Pois bem, meu primeiro pseudo-amor se chamava Carol. Ela tinha oito anos. Eu a namorei por cinco meses, mas ela nunca soube. Na verdade, eu mal a cumprimentava. Mesmo assim, cria piamente que a amava, apesar de ouvir de minha mãe que crianças de oito anos não sabem o que é amor.

Eu não era o tipo de cara mais “azarado do pedaço”. Nunca fui. Talvez por isso não tenha conhecido muitas meninas. E talvez por isso tenha me apaixonado por todas as poucas que conheci. Magro, baixo, óculos, aparelho, espinhas, coisa do tipo. Sejamos sinceros, não é bem o tipo de cara que uma mulher sonha. Ao menos não a maioria.

Depois da Carol, eu me apaixonei pela Beatriz. Eu estava na 7ª série e ela nem sequer me dava bom dia. Mesmo assim gostei dela até a 8ª série, quando mudei de escola e conheci a Mariana.

A Mary era uma garota linda. Olhos claros, cabelos longos e, claro, com todos os garotos da escola babando por ela. Imagina se ela iria sequer olhar para mim. Para minha sorte, ou infortúnio, fomos parceiros de laboratório. Eu até estranhei quando ela começou a conversar comigo. Achei que estivesse com pena pelo fato de quase ninguém o fazer. Eu estava enganado. Ouvi uns burburinhos de que ela estava gostando de mim. Claro que não acreditei! Imagina se a menina mais popular da escola iria olhar para um fracassado como eu!

Acontece que ela era extremamente estudiosa. Cursava inglês desde muito nova. Passou na prova de intercâmbio. Foi morar no Canadá. No último dia de aula, ela disse que estivera esperando que eu me aproximasse, mas depois se convenceu de que não fazia o meu tipo. Dá para imaginar como eu me senti. Tipo quando se sobe uma escada no escuro, e acaba pisando em falso, crendo que havia outro degrau. Mais ou menos isso, só que pior.

Levei algum tempo para superar este lapso de burrice, o que não era tão incomum em minha pessoa. Acho que nasci na espécie errada. Na verdade, nem se fosse um jumento seria tão idiota!

No meu último ano do Ensino Médio, conheci uma moça chamada Christine. Ela trabalhava como garçonete em um bar, onde costumava ir para beber. Iniciei nesta vida aos 14 anos, por influência de alguns poucos conhecidos. Depois, os conhecidos se foram, e só a bebida restou. Enfim, foi em uma destas noites ruins que conheci a Chris. Ela, sempre muito simpática, estranhou o fato de me ver pela primeira vez e perguntou de onde eu era. Papo vem, papo vai, descobri que ela era dois anos mais velha, e que estava fazendo faculdade de enfermagem. Ralava no bar do pai para tirar uma grana extra.

Como das outras vezes, foi amor à primeira vista. Ou pseudo-amor, tanto faz. Desta vez, jurei que não seria tão lerdo, e faria alguma coisa, mesmo que corresse o risco de levar um “não”. Para quê? No segundo dia em que a vi, despejei elogios e declarações. Disse que a amava e que a queria para o resto de minha vida para ser a mãe dos meus filhos. Eu nem tinha perguntado se ela era casada, noiva ou se tinha namorado. Outra burrice sem tamanho! Ainda bem que não estava comendo nada quando me disse, um pouco sem jeito, que não gostava de homens. A Christine era lésbica! Meu Deus! Onde foi que eu errei?

Tudo bem. Bola para frente, certo? Foi o que eu fiz. No ano seguinte era o mais novo estudante de Engenharia Elétrica da Universidade de São Paulo. Cidade nova. Vida nova. Pseudo-amor novo: uma das quatro meninas da sala, a Paula.

Tinha tudo para ser diferente. Assim como eu, ela era do interior e tinha muitos gostos em afinidade com os meus. Também usava óculos e tinha problemas com acne. Só não usava aparelho. Ainda bem que não aparentava ter problemas com quem o fazia. Estudávamos juntos e dividíamos a mesa no horário de almoço. Tudo estava indo bem.

Um dia, quando estávamos estudando Cálculo II, nos olhamos de maneira diferente, e o meu tão esperado primeiro beijo aconteceu. Foi meio estranho. Dentes batendo, gosto de saliva, não saber ao certo onde colocar as mãos. Acho que nos beijamos com as mãos na mesa. Mesmo assim o mundo pareceu mais belo. Tirando os lábios dela, que estavam inchados por causa de uma mordida um pouco exagerada.

Começamos a namorar na semana seguinte. A Paulinha era um amor. Com o tempo, ela fez um tratamento de pele, e começou a usar lentes de contato. Ficou ainda mais linda. Mas, pelo visto, não era o único a achar. Namoramos um ano e cinco meses, até ver a Paulinha beijando o Roberto no corredor da nossa sala. Assim mesmo, sem ao menos disfarçar. Eu engoli em seco, e entrei como se não tivesse nada a ver com aquela cena. Tentei me concentrar na aula, mas não deu outra. Meu estômago estava embrulhado demais. E meus ovos mexidos ficaram ali mesmo na sala. Era só o que me faltava, o apelido de “ovinhos mexidos” pelo resto do curso.

Mas eu sobrevivi. Acho que levei um porre nesta noite. Coma alcoólico. Lá no hospital conheci uma enfermeira muito gentil, a Débora. Ela tinha um rosto angelical e uma voz extremamente adorável. Era muito atenciosa. Eu deveria supor que eram ossos do ofício. Uma mulher não pode ao menos falar mais baixo comigo, que eu me apaixono. Não sei explicar o que é. A gente conversou um pouco, e pedi o seu telefone. Fiz aquela cara de quem vê um prato de jiló ao invés de batata frita, com o rosto franzido, temendo a resposta. Para minha surpresa, ela me deu.

Esperei ansiosamente três longos dias passarem, e liguei. Ela atendeu com aquela voz afável. Conversamos um pouco sobre a profissão dela, sobre meu curso, e algumas outras trivialidades. Em uma semana já a chamava de Deby. Saímos umas três ou quatro vezes para beber e comer alguma coisa.

Na terceira semana eu resolvi conversar com ela. Falei sobre as minhas decepções e terminei dizendo que nada disso importava mais, porque eu estava apaixonado por ela. Ela ficou muda. Notei que estava tensa e desconsertada. Não era para menos. Ela disse que estava se sentindo culpada, que eu havia confundido as coisas, que era apenas amizade e que estava noiva. Ia me convidar para ser padrinho naquela noite. Eu disse para não se importar, e que aceitaria o convite se ainda estivesse de pé.

Não foi fácil, não. Mas terminei o curso. Consegui um emprego em uma empresa conhecida. Tinha um apartamento decente, um carro novo, um bom emprego. E aquela história de mulher não se importar com o cara em si quando ele tem tudo isso? Não passa de falatório sem nexo. Talvez o problema fosse eu. Pensando bem, acho que era isso.

Aos trinta e cinco anos conheci uma psicóloga que também trabalhava na mesma empresa, Renata. Morena, um pouco acima do peso, cabelos curtos. Um pouco mais alta que eu, o que não era tão raro assim. Começamos a conversar. Saímos para almoçar algumas vezes. Desta vez, fui mais cauteloso. Acho que a maturidade finalmente havia me alcançado. Conhecemo-nos. Eu já sabia que iria gostar dela. Mas esperei que alguns meses se passassem. Procurei saber se era comprometida. Ainda bem que não.

Saímos para jantar em uma noite agradável de verão. O restaurante era aconchegante. O lugar ideal. Tive de ir ao banheiro, lavar o rosto, respirar fundo umas vinte vezes, para, enfim, conseguir dizer o que guardara por muito tempo. Fui devagar, sem me exaltar, sem exageros. Soube que ela me correspondia. Ficamos juntos e começamos a namorar. Completado um ano de namoro, a pedi em casamento e ela aceitou. Tínhamos planejado tudo para casarmos no ano seguinte, na primavera, como ela sempre havia sonhado. Era tudo tão perfeito que eu deveria ter desconfiado. Afinal, esmola muita, o santo desconfia.
Estava no trabalho quando recebi a notícia de que a Rê havia sofrido um acidente. Pensei logo em atropelamento, ou quem sabe bala perdida, do jeito que as coisas estão. Não poderia ser pior. Um tijolo caiu em cima da cabeça dela enquanto andava na rua. Morte instantânea. Ah, não! Eu devo ter matado alguém a cuspe, ou colado chiclete na cruz, só pode!

Depois dela, nenhuma outra mulher surgiu em minha vida. Então, em um dia como outro qualquer, em uma mesa de algum bar, eu me dei conta de que apenas um alguém sempre estivera comigo. Era ela quem me consolava depois de cada perda. Todos se iam, mas ela era a única a permanecer. No fim, era com ela que eu sempre acabava. Eu descobri que a Cachaça era o meu verdadeiro amor.

Hoje, estou numa clínica para recuperação. Acredita que querem me separar daquela que sempre foi a única a ficar verdadeiramente comigo?! Parece que querem me ver sozinho. Deve mesmo ser isso.



(Esse também é bem antigo... quero só ver quando vou postar textos novos. =/)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Palavras para Alguém

"Foi só um instante, um instantinho só
E elas me invadiram por completo
E pediram para vazar
Gritaram ao pé do ouvido
Futucaram-me, importunaram-me
Suplicaram com jeitinho
Pediram-me com carinho
Arrastaram-me para cá e me disseram:
"Deixo-nos lá"
Num papel ou numa tela
Quem dera fosse nos ouvidos
"Mas deixe-nos lá"
Derrama-nos por sobre a superfície
Espalha-nos por todos os lados
Jogue-nos de qualquer jeito
Em qualquer lugar
"Mas deixe-nos lá"
As palavras sussuravam, educadas
Gritavam, ensandecidas
Imploravam, desesperadas
O que mais eu poderia fazer?
O que você faria?
Eu vim pra cá
E nem sabia o que dizer
Não sou eu quem está dizendo
São elas:
"Deixe-nos lá"
Diga a ele bem baixinho
[Ou grite, se preferir]
Mas só não deixe de dizer
Que ele ainda te faz enlouquecer
Perder o sono e o rumo
E até perder o prumo
Virar criança, adolescente
Beijar as mãos, compor canções
"Eu não sei a nova gramática"
"Ora, vamos, você nunca foi fanática!"
"Tem tanto tempo que não escrevo"
"Mas não é você quem está escrevendo"
"Mas e se ele rir de mim?"
"E o que é que temos a ver com isso?"
"Queremos voar por sobre o vento,
sobrevoar o infitino,
nos deleitar no firmamento,
falar do amor, que é tão bonito"
E me cansei de discutir
De argumentar, tentar fugir
E me rendi, por isso vim
Pra te dizer que sem você
Meu eu é só
Não existe "mim"
Eu separei o meu melhor
E te entreguei de coração
Mas esqueci de me dizer
Que não há mais devolução
Mas pra surpresa, eu percebi
Que, na verdade, nem me importo
É de você que sinto falta
É pra você o meu amor
Teu nome chamo em voz alta
        E é tua ausência que deixa dor"

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Menino e a Bailarina

Havia um pequeno garoto sentado ao balanço esquerdo de um pequeno parque. Ele sempre sentava ao mesmo balanço, mas não sem antes empurrar, com todas as forças que tinha, o outro que ficava à sua direita. Era como um ritual de companhia. Havia-se habituado tanto àquele pequeno parque, que este se tornou o seu verdadeiro lar. Ele adorava sentar àquele balanço, principalmente naquela época do ano; ficava realmente fascinado com a dança das folhas caídas com o vento.

Havia também uma pequena bailarina azulada. Ela, com o seu vestidinho vermelho e suas graciosas sapatilhas esverdeadas, já estava há tanto tempo na lojinha, que havia deixado de ser uma mercadoria, passando a ser parte da decoração.

Viver em uma vitrine tem lá seu lado bom. Ela não havia de reclamar por viver entre soldadinhos de chumbo, castelos e princesas encantadas. Mas algo dizia à pequenina que não era o bastante. Ela sonhava com o que não podia ver, com o que ficava atrás da rua movimentada, das pessoas apressadas, dos carros cinzentos, e da banca de jornal que tapava a vista, então limitada pela estreiteza da lojinha de brinquedos que chamava de lar.

Naquela tarde, absorto em seus pensamentos, o garotinho perdeu-se no tempo, e só percebeu que estava tarde quando o sol foi substituído pela lua crescente. Ele saiu apressado, como se tivesse esquecido algo em um lugar movimentado, e precisasse retornar o mais rápido possível. Suas pernas pareciam ter vida própria, e o levaram a atravessar a larga e movimentada avenida, caminho totalmente contrário à sua rota de hábito. Ele não saberia o porquê de tudo isso, até se deparar com a pequena vitrine.

Não viu os super-heróis, ou os soldadinhos de chumbo, tampouco o último lançamento – o robô que se transformava em um carrinho de controle remoto. Seus olhos pararam em cima da delicada bailarina azulada. Não soube dizer se foram as cores fortes estranhamente misturadas, ou o quê. Só não conseguia desviar o olhar.

Ela também não conseguiu desviar a atenção. Deveria ter-se acostumado com os olhares, afinal, sempre morou em uma vitrine. Mas aquele garoto a fez sentir-se de modo diferente. Pela primeira vez, a pequena bailarina sentiu-se observadora, como se a vitrine fosse do pequeno rapaz, e não dela.

Ficaram nesse deslumbre mútuo, nesse silêncio raro, em que se dizem mais coisas do que em toda a vida, por isso, quando se despediram, também em silêncio, sentiram como se sentem as pessoas que se despedem depois de uma longa tarde de conversa.

O menino retornou no dia seguinte, e no outro, e no posterior. Mas, sempre que retornava, a lojinha estava fechada. Ficavam lá, se olhando, trocando confidências silenciosas por longos minutos, e despediam-se com um tímido sorriso. A pequena bailarina até colocou uma fita rosa nos cabelos, que conseguiu de uma das princesas que lhe dividiam a vitrine.

O garotinho continuava usando roupas pretas, mas já não estavam tão amassadas ou sujas – ele estava se cuidando também.

As visitas eram constantes e muito esperadas, por ambas as partes. Porém, um dia o garotinho não veio. Este dia se tornou semanas, que se tornaram meses. A pequena bailarina foi perdendo o brilho, o sorriso foi minguando. Todas as vezes que via um garotinho de preto seu coração saltava, mas logo tinha a impressão de que iria cair, ao perceber que foi apenas outro devaneio.

Depois de meses o menino retornou à loja. Trazia um saquinho nas mãos. Era a primeira vez que ia à loja enquanto aberta. Para infortúnio do pequeno rapaz, a bailarina já não estava na vitrine. Nunca sentiu dor tão parecida. Sentiu tudo se congelar, como quando se sobe uma escada no escuro, e se pisa em falso, achando que há outro degrau. Tentou conter as lágrimas, mas uma, contrariando o esforço do pobre mocinho, insistiu em cair pelo olho direito.

No outro dia, o menino retornou à loja, mas decidiu perguntar sobre a pequenina que lhe era tão importante. Foi aí que teve uma surpresa: ela não havia sido comprada, apenas a tiraram da vitrine, pois, não sabiam o porquê, mas ela havia perdido o brilho. Tinha sido posta em uma caixa no depósito, já que ninguém a compraria, e a moça não tinha coragem de se livrar dela.

O menino quase não conseguiu falar de tanta emoção. Tirou o saquinho do bolso e o pôs em cima do balcão, recuperou o fôlego e disse com um tom adulto e decidido: “Então eu vou ficar com ela!”. A moça tentou dizer que não estava à venda, que estava velha, mas ele não a ouviu. Explicou-lhe que havia trabalhado meses, vendendo jornais e rosas na pracinha, só para comprá-la. A moça se comoveu com o ímpeto do garoto. Viu nos olhos dele a importância da pequena dançarina. Então, foi até o depósito, limpou a poeira que se havia acumulado sobre a pequenina, e a entregou ao mocinho.

A bailarina mal pôde acreditar quando o viu. De início, assustou-se quando as mãos dele vieram em sua direção – achou que ele iria machucá-la. Entretanto ele a envolveu em um longo e carinhoso abraço. Como em um passe de mágica a pequenina recuperou toda a beleza e o brilho de outrora. A moça ficou tão emocionada com a cena que não pôde conter as lágrimas. O menino saiu saltitando com a bailarina no colo.

Chegando à beira da calçada, tiveram de esperar o sinal fechar. Então, ele a pôs no chão. Ela cambaleou um pouco, um medo tomou conta dela no mesmo instante, mas, como se pressentisse, o menino tomou-lhe a mão, como quem diz “Eu estou aqui para te proteger!”. Foi neste momento que uma enorme Van preta parou em frente a eles. Só então puderam ver o real motivo da atração, até então inexplicável. Através do reflexo puderam ver que eram iguais; um garoto e uma bailarina azuis. Jamais se viram em um espelho, ou coisa parecida, anteriormente. Sempre sentiram que se conheciam, mas nunca puderam explicar.

O sinal abriu. Eles contornaram a Van, ainda de mãos dadas. Ela não sabia para onde estava sendo levada, mas confiava plenamente nele. Pararam em frente à banca de jornal. Ela ficou estupefata por alguns segundos, pois agora via de perto o que sempre viu por toda a vida. Era um pouco diferente do que imaginava. As fotografias lhe chamavam a atenção. Mas o menino logo a puxou para contornar a pequena banca.

Tudo era novo e maravilhosamente belo no lugar em que estavam, principalmente para a bailarina. Ele a pegou no colo gentilmente. Em seguida, a pôs no balanço direito e a empurrou com toda a delicadeza que lhe foi possível. Depois, se sentou ao balanço de costume. Já não havia folhas no chão, mas flores por todos os lados. Mas se eram flores ou folhas, já não importava. Ele agora tinha uma companhia, e ela também. O resto era só cenário, uma mera complementação, nada mais.


(Também antigo, mas infinitamente precioso. A estória de um grande amor pra vida toda. =D)

O Mundo Preto-e-Branco

Botas vermelhas de borracha. A pequenina não cabia em si de tanta felicidade. Presente do dia das crianças adiantado que o vovô dera a ela. Calçou-as imediatamente para poder ouvir o “nhec-nhec” da bota ao pisar ao chão de taco.
Usava um vestido branco, e longas tranças em seus cabelos ralos e loiros. Aqueles olhos saltados, típicos de crianças da sua idade, brilhavam como estrelas em noite quente. Quase não tinha sobrancelhas, de tão alvas que eram. Seus lábios, rubros como o sangue, cerrados, de tanta emoção. Saltitava, corria e parava de súbito. Rodopiava como a um carrossel.
Todos na sala sorriam sem entender a emoção da garotinha. Afinal, o que uma bota de borracha tinha de tão especial? Ah! Pelo menos foram sensatos e não lhe fizeram tal estúpida pergunta. É claro que tinha tudo de mais magnífico! “As botas vermelhas de borracha têm super-poderes”, responderia a pequena, sussurrando, como quem acaba de revelar um segredo precioso.
“Elas te fazem voar para o Mundo Preto-e-Branco. Lá as coisas não têm cor, as pessoas, sim. Tem gente cor-de-rosa e até azul. Eu gosto das listradas e com bolinhas. E tem as que mudam de cor enquanto caminham, ou quando estão felizes ou tristes.”
“Lá cada um tem uma trilha sonora. O melhor é que elas não se misturam, sabe? E as pessoas não falam como nesse mundo aqui. Esse onde a gente mora. Esse onde as coisas têm cores e algumas pessoas, não. É tão triste não ter cor, você não acha? Por isso eu sempre quis a bota vermelha de borracha!”
“Lá as pessoas falam cantando, ou com barulhos, como os dos desenhos animados. Alguns recitam poesia. Dizem que há uma menina que fala como a um piano. Eu queria falar como violino!”
“O ‘nhec-nhec’ é o sinal de que precisa para saber que está pronta para ser teletransportada. Mas nem todos podem ir. Por isso enviam um clone nosso para cá, enquanto estamos lá do outro lado. Entendeu?”
A menininha sorria e corria de olhos fechados, abrindo-os, de vez em quando, bem disfarçadamente. Ficou assim por horas a fio. Mas chegou a hora de dormir.
“Você não pode dormir com as botas, senão você fica presa do outro lado. E se ficar presa, você pode ficar sem cor, também, e virar uma coisa. Disseram-me que um menino não quis tirar antes de dormir, e sumiu. O clone dele apareceu desligado. E ele acabou virando um banco da praça perto da igrejinha torta do Mundo Preto-e-Branco.”
A mãe a deixou no quarto, deu-lhe um beijo na testa e deixou a porta semi-aberta, como de costume. A pequena esperou que saísse e então calçou-as, novamente. Correu e rodou por mais alguns minutos. Parou ao perceber que estava com sono. “Preciso tirá-las, ou posso virar um chafariz! Que horror!”
Ainda faltava uma semana para o dia das crianças. Passou a semana indo e vindo do Mundo Preto-e-Branco. Até que o dia finalmente chegou.
Arrumou-se com as tranças, como de hábito, e um vestido amarelo. Adorava amarelo, assim como o sol. Foi ao parque com seus pais. Comprou algodão-doce, pipoca e tudo o que tinha direito. Lógico que estava com as botas.
Na volta, vinha saltitando, um tanto avoada, quando reparou uma menina sentada à calçada. Ela estava suja e muito magra. Suas roupas eram menores para o seu tamanho, e, o que mais chamou a atenção da doce garotinha de botas avermelhadas: seus pés estavam descalços. Os olhos dela estavam opacos, e seus lábios, ressecados. Havia tristeza em seu olhar. Muita. E solidão, também. E a pequenina soube desde o início.
- Olá! – Disse, sorrindo.
- Oi. – Respondeu timidamente a outra.
- Feliz dia das crianças! O que ganhou de presente, amiguinha? – Disse, inocentemente.
- Nada. Nunca ganhei presente. A não ser quando peço roupas ou comida na casa dos outros. – Disse, ainda de cabeça baixa.
A garotinha não conseguia imaginar alguém que não houvesse ganhado presente do dia das crianças. “Ela não tem cor. Não deve conhecer o Mundo Preto-e-Branco. Ela deve ser tão triste.”
- Você conhece o Mundo Preto-e-Branco? – E, ao receber a resposta negativa, contou-lhe tudo o que sabia. Seus pais já estavam acostumados com seu jeito. Afastaram-se para deixá-las à vontade.
Enquanto falava, a triste menina levantou a cabeça, com olhos vidrados. De repente um sorriso foi se esboçando, aos poucos. As mãos começavam a se mexer, e mordia os lábios, como quem espera o prato preferido com o estômago vazio. A garotinha, então, pediu que esperasse e foi até seus pais.
- Pode esperar aqui? Eu volto já, já! – E a pobrezinha, mesmo entristecida por não estar mais ouvindo as estórias, balançou a cabeça em afirmativa.
Uma hora e meia depois a pequenina volta com um embrulho grande:
- Toma! Pra você! Presente do dia das crianças! – Falou, abrindo-lhe um largo, banguelo e sincero sorriso.
Ao abrir o embrulho, a menininha vislumbrou duas reluzentes e vermelhas botas de borracha.
- Olha, assim que você calçar e ouvir o ‘nhec-nhec’, vai sentir um puxão aqui na barriga e vai rodopiar até chegar lá. Eu sou a amarela. Mas amarelo ouro, assim como o sol. Não esquece! Agora, vamos logo. Quero ver que cor você é!
E as meninas rodaram, correram, sorriram, caíram, levantaram e pularam.
- Ei! Veja! Eu sou laranja! Eu amo laranjas! – Disse a menina, já não mais com olhos tristes.


(Finalmente postado na íntegra.)

Início

O começo sofrido, árduo como o trabalho no arado. Porém, simples como o bailar das folhas com o vento, no outono. Perdi o hábito de começar, e não desenvolvi bem o de findar. Poderia dizer que são somente palavras, e são. Mas se digo que sou palavras, logo, sou somente eu. E isso nunca foi nem será fácil. Jamais.