quarta-feira, 2 de março de 2011

O Mundo Preto-e-Branco

Botas vermelhas de borracha. A pequenina não cabia em si de tanta felicidade. Presente do dia das crianças adiantado que o vovô dera a ela. Calçou-as imediatamente para poder ouvir o “nhec-nhec” da bota ao pisar ao chão de taco.
Usava um vestido branco, e longas tranças em seus cabelos ralos e loiros. Aqueles olhos saltados, típicos de crianças da sua idade, brilhavam como estrelas em noite quente. Quase não tinha sobrancelhas, de tão alvas que eram. Seus lábios, rubros como o sangue, cerrados, de tanta emoção. Saltitava, corria e parava de súbito. Rodopiava como a um carrossel.
Todos na sala sorriam sem entender a emoção da garotinha. Afinal, o que uma bota de borracha tinha de tão especial? Ah! Pelo menos foram sensatos e não lhe fizeram tal estúpida pergunta. É claro que tinha tudo de mais magnífico! “As botas vermelhas de borracha têm super-poderes”, responderia a pequena, sussurrando, como quem acaba de revelar um segredo precioso.
“Elas te fazem voar para o Mundo Preto-e-Branco. Lá as coisas não têm cor, as pessoas, sim. Tem gente cor-de-rosa e até azul. Eu gosto das listradas e com bolinhas. E tem as que mudam de cor enquanto caminham, ou quando estão felizes ou tristes.”
“Lá cada um tem uma trilha sonora. O melhor é que elas não se misturam, sabe? E as pessoas não falam como nesse mundo aqui. Esse onde a gente mora. Esse onde as coisas têm cores e algumas pessoas, não. É tão triste não ter cor, você não acha? Por isso eu sempre quis a bota vermelha de borracha!”
“Lá as pessoas falam cantando, ou com barulhos, como os dos desenhos animados. Alguns recitam poesia. Dizem que há uma menina que fala como a um piano. Eu queria falar como violino!”
“O ‘nhec-nhec’ é o sinal de que precisa para saber que está pronta para ser teletransportada. Mas nem todos podem ir. Por isso enviam um clone nosso para cá, enquanto estamos lá do outro lado. Entendeu?”
A menininha sorria e corria de olhos fechados, abrindo-os, de vez em quando, bem disfarçadamente. Ficou assim por horas a fio. Mas chegou a hora de dormir.
“Você não pode dormir com as botas, senão você fica presa do outro lado. E se ficar presa, você pode ficar sem cor, também, e virar uma coisa. Disseram-me que um menino não quis tirar antes de dormir, e sumiu. O clone dele apareceu desligado. E ele acabou virando um banco da praça perto da igrejinha torta do Mundo Preto-e-Branco.”
A mãe a deixou no quarto, deu-lhe um beijo na testa e deixou a porta semi-aberta, como de costume. A pequena esperou que saísse e então calçou-as, novamente. Correu e rodou por mais alguns minutos. Parou ao perceber que estava com sono. “Preciso tirá-las, ou posso virar um chafariz! Que horror!”
Ainda faltava uma semana para o dia das crianças. Passou a semana indo e vindo do Mundo Preto-e-Branco. Até que o dia finalmente chegou.
Arrumou-se com as tranças, como de hábito, e um vestido amarelo. Adorava amarelo, assim como o sol. Foi ao parque com seus pais. Comprou algodão-doce, pipoca e tudo o que tinha direito. Lógico que estava com as botas.
Na volta, vinha saltitando, um tanto avoada, quando reparou uma menina sentada à calçada. Ela estava suja e muito magra. Suas roupas eram menores para o seu tamanho, e, o que mais chamou a atenção da doce garotinha de botas avermelhadas: seus pés estavam descalços. Os olhos dela estavam opacos, e seus lábios, ressecados. Havia tristeza em seu olhar. Muita. E solidão, também. E a pequenina soube desde o início.
- Olá! – Disse, sorrindo.
- Oi. – Respondeu timidamente a outra.
- Feliz dia das crianças! O que ganhou de presente, amiguinha? – Disse, inocentemente.
- Nada. Nunca ganhei presente. A não ser quando peço roupas ou comida na casa dos outros. – Disse, ainda de cabeça baixa.
A garotinha não conseguia imaginar alguém que não houvesse ganhado presente do dia das crianças. “Ela não tem cor. Não deve conhecer o Mundo Preto-e-Branco. Ela deve ser tão triste.”
- Você conhece o Mundo Preto-e-Branco? – E, ao receber a resposta negativa, contou-lhe tudo o que sabia. Seus pais já estavam acostumados com seu jeito. Afastaram-se para deixá-las à vontade.
Enquanto falava, a triste menina levantou a cabeça, com olhos vidrados. De repente um sorriso foi se esboçando, aos poucos. As mãos começavam a se mexer, e mordia os lábios, como quem espera o prato preferido com o estômago vazio. A garotinha, então, pediu que esperasse e foi até seus pais.
- Pode esperar aqui? Eu volto já, já! – E a pobrezinha, mesmo entristecida por não estar mais ouvindo as estórias, balançou a cabeça em afirmativa.
Uma hora e meia depois a pequenina volta com um embrulho grande:
- Toma! Pra você! Presente do dia das crianças! – Falou, abrindo-lhe um largo, banguelo e sincero sorriso.
Ao abrir o embrulho, a menininha vislumbrou duas reluzentes e vermelhas botas de borracha.
- Olha, assim que você calçar e ouvir o ‘nhec-nhec’, vai sentir um puxão aqui na barriga e vai rodopiar até chegar lá. Eu sou a amarela. Mas amarelo ouro, assim como o sol. Não esquece! Agora, vamos logo. Quero ver que cor você é!
E as meninas rodaram, correram, sorriram, caíram, levantaram e pularam.
- Ei! Veja! Eu sou laranja! Eu amo laranjas! – Disse a menina, já não mais com olhos tristes.


(Finalmente postado na íntegra.)

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