Sempre me perguntei sobre essa tal história de Amor. O que é ele? Ou quem é ele? Confesso que só depois de muitos anos descobri o meu verdadeiro amor. Todavia tive de conhecer inúmeros pseudo-amores para notá-la. Sim, notá-la. Na verdade, ela quase sempre esteve comigo, mas eu jamais havia notado. Acho que o verdadeiro amor é sempre assim.
Pois bem, meu primeiro pseudo-amor se chamava Carol. Ela tinha oito anos. Eu a namorei por cinco meses, mas ela nunca soube. Na verdade, eu mal a cumprimentava. Mesmo assim, cria piamente que a amava, apesar de ouvir de minha mãe que crianças de oito anos não sabem o que é amor.
Eu não era o tipo de cara mais “azarado do pedaço”. Nunca fui. Talvez por isso não tenha conhecido muitas meninas. E talvez por isso tenha me apaixonado por todas as poucas que conheci. Magro, baixo, óculos, aparelho, espinhas, coisa do tipo. Sejamos sinceros, não é bem o tipo de cara que uma mulher sonha. Ao menos não a maioria.
Depois da Carol, eu me apaixonei pela Beatriz. Eu estava na 7ª série e ela nem sequer me dava bom dia. Mesmo assim gostei dela até a 8ª série, quando mudei de escola e conheci a Mariana.
A Mary era uma garota linda. Olhos claros, cabelos longos e, claro, com todos os garotos da escola babando por ela. Imagina se ela iria sequer olhar para mim. Para minha sorte, ou infortúnio, fomos parceiros de laboratório. Eu até estranhei quando ela começou a conversar comigo. Achei que estivesse com pena pelo fato de quase ninguém o fazer. Eu estava enganado. Ouvi uns burburinhos de que ela estava gostando de mim. Claro que não acreditei! Imagina se a menina mais popular da escola iria olhar para um fracassado como eu!
Acontece que ela era extremamente estudiosa. Cursava inglês desde muito nova. Passou na prova de intercâmbio. Foi morar no Canadá. No último dia de aula, ela disse que estivera esperando que eu me aproximasse, mas depois se convenceu de que não fazia o meu tipo. Dá para imaginar como eu me senti. Tipo quando se sobe uma escada no escuro, e acaba pisando em falso, crendo que havia outro degrau. Mais ou menos isso, só que pior.
Levei algum tempo para superar este lapso de burrice, o que não era tão incomum em minha pessoa. Acho que nasci na espécie errada. Na verdade, nem se fosse um jumento seria tão idiota!
No meu último ano do Ensino Médio, conheci uma moça chamada Christine. Ela trabalhava como garçonete em um bar, onde costumava ir para beber. Iniciei nesta vida aos 14 anos, por influência de alguns poucos conhecidos. Depois, os conhecidos se foram, e só a bebida restou. Enfim, foi em uma destas noites ruins que conheci a Chris. Ela, sempre muito simpática, estranhou o fato de me ver pela primeira vez e perguntou de onde eu era. Papo vem, papo vai, descobri que ela era dois anos mais velha, e que estava fazendo faculdade de enfermagem. Ralava no bar do pai para tirar uma grana extra.
Como das outras vezes, foi amor à primeira vista. Ou pseudo-amor, tanto faz. Desta vez, jurei que não seria tão lerdo, e faria alguma coisa, mesmo que corresse o risco de levar um “não”. Para quê? No segundo dia em que a vi, despejei elogios e declarações. Disse que a amava e que a queria para o resto de minha vida para ser a mãe dos meus filhos. Eu nem tinha perguntado se ela era casada, noiva ou se tinha namorado. Outra burrice sem tamanho! Ainda bem que não estava comendo nada quando me disse, um pouco sem jeito, que não gostava de homens. A Christine era lésbica! Meu Deus! Onde foi que eu errei?
Tudo bem. Bola para frente, certo? Foi o que eu fiz. No ano seguinte era o mais novo estudante de Engenharia Elétrica da Universidade de São Paulo. Cidade nova. Vida nova. Pseudo-amor novo: uma das quatro meninas da sala, a Paula.
Tinha tudo para ser diferente. Assim como eu, ela era do interior e tinha muitos gostos em afinidade com os meus. Também usava óculos e tinha problemas com acne. Só não usava aparelho. Ainda bem que não aparentava ter problemas com quem o fazia. Estudávamos juntos e dividíamos a mesa no horário de almoço. Tudo estava indo bem.
Um dia, quando estávamos estudando Cálculo II, nos olhamos de maneira diferente, e o meu tão esperado primeiro beijo aconteceu. Foi meio estranho. Dentes batendo, gosto de saliva, não saber ao certo onde colocar as mãos. Acho que nos beijamos com as mãos na mesa. Mesmo assim o mundo pareceu mais belo. Tirando os lábios dela, que estavam inchados por causa de uma mordida um pouco exagerada.
Começamos a namorar na semana seguinte. A Paulinha era um amor. Com o tempo, ela fez um tratamento de pele, e começou a usar lentes de contato. Ficou ainda mais linda. Mas, pelo visto, não era o único a achar. Namoramos um ano e cinco meses, até ver a Paulinha beijando o Roberto no corredor da nossa sala. Assim mesmo, sem ao menos disfarçar. Eu engoli em seco, e entrei como se não tivesse nada a ver com aquela cena. Tentei me concentrar na aula, mas não deu outra. Meu estômago estava embrulhado demais. E meus ovos mexidos ficaram ali mesmo na sala. Era só o que me faltava, o apelido de “ovinhos mexidos” pelo resto do curso.
Mas eu sobrevivi. Acho que levei um porre nesta noite. Coma alcoólico. Lá no hospital conheci uma enfermeira muito gentil, a Débora. Ela tinha um rosto angelical e uma voz extremamente adorável. Era muito atenciosa. Eu deveria supor que eram ossos do ofício. Uma mulher não pode ao menos falar mais baixo comigo, que eu me apaixono. Não sei explicar o que é. A gente conversou um pouco, e pedi o seu telefone. Fiz aquela cara de quem vê um prato de jiló ao invés de batata frita, com o rosto franzido, temendo a resposta. Para minha surpresa, ela me deu.
Esperei ansiosamente três longos dias passarem, e liguei. Ela atendeu com aquela voz afável. Conversamos um pouco sobre a profissão dela, sobre meu curso, e algumas outras trivialidades. Em uma semana já a chamava de Deby. Saímos umas três ou quatro vezes para beber e comer alguma coisa.
Na terceira semana eu resolvi conversar com ela. Falei sobre as minhas decepções e terminei dizendo que nada disso importava mais, porque eu estava apaixonado por ela. Ela ficou muda. Notei que estava tensa e desconsertada. Não era para menos. Ela disse que estava se sentindo culpada, que eu havia confundido as coisas, que era apenas amizade e que estava noiva. Ia me convidar para ser padrinho naquela noite. Eu disse para não se importar, e que aceitaria o convite se ainda estivesse de pé.
Não foi fácil, não. Mas terminei o curso. Consegui um emprego em uma empresa conhecida. Tinha um apartamento decente, um carro novo, um bom emprego. E aquela história de mulher não se importar com o cara em si quando ele tem tudo isso? Não passa de falatório sem nexo. Talvez o problema fosse eu. Pensando bem, acho que era isso.
Aos trinta e cinco anos conheci uma psicóloga que também trabalhava na mesma empresa, Renata. Morena, um pouco acima do peso, cabelos curtos. Um pouco mais alta que eu, o que não era tão raro assim. Começamos a conversar. Saímos para almoçar algumas vezes. Desta vez, fui mais cauteloso. Acho que a maturidade finalmente havia me alcançado. Conhecemo-nos. Eu já sabia que iria gostar dela. Mas esperei que alguns meses se passassem. Procurei saber se era comprometida. Ainda bem que não.
Saímos para jantar em uma noite agradável de verão. O restaurante era aconchegante. O lugar ideal. Tive de ir ao banheiro, lavar o rosto, respirar fundo umas vinte vezes, para, enfim, conseguir dizer o que guardara por muito tempo. Fui devagar, sem me exaltar, sem exageros. Soube que ela me correspondia. Ficamos juntos e começamos a namorar. Completado um ano de namoro, a pedi em casamento e ela aceitou. Tínhamos planejado tudo para casarmos no ano seguinte, na primavera, como ela sempre havia sonhado. Era tudo tão perfeito que eu deveria ter desconfiado. Afinal, esmola muita, o santo desconfia.
Estava no trabalho quando recebi a notícia de que a Rê havia sofrido um acidente. Pensei logo em atropelamento, ou quem sabe bala perdida, do jeito que as coisas estão. Não poderia ser pior. Um tijolo caiu em cima da cabeça dela enquanto andava na rua. Morte instantânea. Ah, não! Eu devo ter matado alguém a cuspe, ou colado chiclete na cruz, só pode!
Depois dela, nenhuma outra mulher surgiu em minha vida. Então, em um dia como outro qualquer, em uma mesa de algum bar, eu me dei conta de que apenas um alguém sempre estivera comigo. Era ela quem me consolava depois de cada perda. Todos se iam, mas ela era a única a permanecer. No fim, era com ela que eu sempre acabava. Eu descobri que a Cachaça era o meu verdadeiro amor.
Hoje, estou numa clínica para recuperação. Acredita que querem me separar daquela que sempre foi a única a ficar verdadeiramente comigo?! Parece que querem me ver sozinho. Deve mesmo ser isso.
(Esse também é bem antigo... quero só ver quando vou postar textos novos. =/)
Depois dela, nenhuma outra mulher surgiu em minha vida. Então, em um dia como outro qualquer, em uma mesa de algum bar, eu me dei conta de que apenas um alguém sempre estivera comigo. Era ela quem me consolava depois de cada perda. Todos se iam, mas ela era a única a permanecer. No fim, era com ela que eu sempre acabava. Eu descobri que a Cachaça era o meu verdadeiro amor.
Hoje, estou numa clínica para recuperação. Acredita que querem me separar daquela que sempre foi a única a ficar verdadeiramente comigo?! Parece que querem me ver sozinho. Deve mesmo ser isso.
(Esse também é bem antigo... quero só ver quando vou postar textos novos. =/)
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