domingo, 6 de março de 2011

O Abandono

A cabeça encostada na janela do ônibus coletivo, o olhar perdido em alguma imagem e a mente a vagar por inúmeros lugares, porém, um único rosto se repetia. Sempre a mesma pessoa, as mesmas lembranças. O que realmente aconteceu ou o que era apenas sonho, agora se confundem; “De que adianta, tudo se foi!”.

O rosto está completamente maquiado, e usa óculos escuros, tudo na tentativa de esconder os olhos inchados.Vez ou outra, uma lágrima teimosa insiste em escorrer pelos cantos, mas ela a impede de chegar à maçã do rosto.Os lábios ainda estão inchados e o nariz adquiriu um incrível tom avermelhado.O cabelo, ao contrário do que costuma usar, está solto, para completar o disfarce.

As mãos inquietas variam do cabelo, à bolsa ou mesmo a roçarem nos braços e entre si; seguram um lenço umedecido. Nunca estivera tão abalada, nem mesmo no velório de sua tão querida avó. Alguns se perguntam o porquê daquela moça tão bela estar triste.

Realmente a beleza é um de seus dons, mas ela não a considera uma virtude.”De que adianta ser tão bela? Ele já não acorda ao meu lado...”.

Um metro e setenta e sete de pura elegância. Pernas longas e bem torneadas, cintura acentuada, longos cabelos negros e olhos de um tom esverdeado incomum. Era impossível não ser notada. Quem tivesse a oportunidade de observá-la de perto, e não se prendesse apenas ao seu corpo escultural, veria que era dona de belas mãos; não só belas, como talentosíssimas. Seus quadros eram maravilhosos, e por coincidência, os havia exposto na semana anterior.

Linda, bem sucedida, independente, e agora, só.Ainda não conseguia assimilar os fatos; a carta, as chaves, a cama vazia, o armário onde, um dia, estiveram diversos ternos, calças, cintos...

Três anos, sete meses, treze dias e exatamente quinze horas.Uma vida inteira se foi em uma madrugada, sem ao menos dizer adeus, a não ser por um bilhete escrito atrás de um folheto qualquer: “Sinto muito, não posso mais ficar. Você é maravilhosa, mas não é para mim. Não conseguiria dizer isso olhando nos seus olhos, então, optei por escrever-lhe. Espero que me perdoe. Te amo, Pedro”.

Uma das poucas coisas das quais se recorda, é a festa da noite passada. Ele a acompanhava, estava tudo bem, pelo menos era o que pensava. Chegaram em casa pouco mais de meia noite e foram direto para a cama. Sim; esta noite ele não lhe deu boa noite, tampouco o beijo na testa, mas estavam cansados. Ele esteve distraído a noite toda, na verdade, havia um certo tempo, mas ela pensou que eram apenas negócios.

Agora, estava em um ônibus qualquer, mal leu qual o seu destino. Costumava fazer isso quando precisava ficar só e pensar. Uma mania um tanto quanto estranha, mas que funcionava. Ela precisava refletir, descobrir o porquê, onde tinha errado; depois, o que fazer. Iria atrás dele? Seguiria sem ele?”Como se ele era a minha vida?”.

Haveria outra?” Mas ele nada mencionou no bilhete”, “Onde foi que eu errei, meu Deus?”. Pensou nas últimas semanas, se o havia deixado de lado por causa da exposição, se havia proferido alguma palavra que o ferisse, mas nada encontrou. Não conseguia achar explicação alguma, e isso tornava a dor mais intensa. Sentia-se culpada e vítima. Terá sido um mal entendido? Como saber? O celular está desligado, ou ele não quer atendê-la?

Ela desce no próximo ponto.Vai andando até parar em frente a uma pracinha.Uma estátua no centro chama a sua atenção.A expressão desolada da pobre moça, os ombros caídos.”Será que também foi abandonada?”.

Sentou-se em um banco próximo e ficou a observar as crianças correndo de um lado para o outro.
- Amor, acho que estou preparada para ter um filho. O que acha?
- Acho maravilhoso. Quando para de tomar os remédios?
- Na verdade já parei.
Ele lhe parece desconcertado:
- Por que essa cara, algum problema?
- Não, não; achei que só o faria depois desta conversa. Está tudo bem, querida.

Após a pequena viagem ao passado, pegou a bolsa, retirou um envelope, e as lágrimas foram embaladas por gemidos profundos e dolorosos. Ao retirar o conteúdo, logo se percebia que se tratava de algum exame, mais precisamente um exame de gravidez.O resultado era positivo; ela estava grávida, e só. Sua mão repousava sobre a barriga, e com a voz embargada disse:
- Fique tranqüilo, meu bem, a mamãe está aqui.Não irei te abandonar.Você será a minha vida agora, e só para ti hei de viver!

(Creio que não escreverei nada até postar quase todos os antigos. =/ Bom, este foi o meu segundo.)

2 comentários:

  1. comovente tocante e lindo. palavras belíssimas cheias de lirismo. li várias vezes. muito poético. (ainda doarei um texto pro blog, será uma honra..) o Despejo tudo em pedaços é muito bom! excelente! filosófico e romântico. e o novo layout ficou ótimo! sua cara.. abraceijos

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