quarta-feira, 2 de março de 2011

O Menino e a Bailarina

Havia um pequeno garoto sentado ao balanço esquerdo de um pequeno parque. Ele sempre sentava ao mesmo balanço, mas não sem antes empurrar, com todas as forças que tinha, o outro que ficava à sua direita. Era como um ritual de companhia. Havia-se habituado tanto àquele pequeno parque, que este se tornou o seu verdadeiro lar. Ele adorava sentar àquele balanço, principalmente naquela época do ano; ficava realmente fascinado com a dança das folhas caídas com o vento.

Havia também uma pequena bailarina azulada. Ela, com o seu vestidinho vermelho e suas graciosas sapatilhas esverdeadas, já estava há tanto tempo na lojinha, que havia deixado de ser uma mercadoria, passando a ser parte da decoração.

Viver em uma vitrine tem lá seu lado bom. Ela não havia de reclamar por viver entre soldadinhos de chumbo, castelos e princesas encantadas. Mas algo dizia à pequenina que não era o bastante. Ela sonhava com o que não podia ver, com o que ficava atrás da rua movimentada, das pessoas apressadas, dos carros cinzentos, e da banca de jornal que tapava a vista, então limitada pela estreiteza da lojinha de brinquedos que chamava de lar.

Naquela tarde, absorto em seus pensamentos, o garotinho perdeu-se no tempo, e só percebeu que estava tarde quando o sol foi substituído pela lua crescente. Ele saiu apressado, como se tivesse esquecido algo em um lugar movimentado, e precisasse retornar o mais rápido possível. Suas pernas pareciam ter vida própria, e o levaram a atravessar a larga e movimentada avenida, caminho totalmente contrário à sua rota de hábito. Ele não saberia o porquê de tudo isso, até se deparar com a pequena vitrine.

Não viu os super-heróis, ou os soldadinhos de chumbo, tampouco o último lançamento – o robô que se transformava em um carrinho de controle remoto. Seus olhos pararam em cima da delicada bailarina azulada. Não soube dizer se foram as cores fortes estranhamente misturadas, ou o quê. Só não conseguia desviar o olhar.

Ela também não conseguiu desviar a atenção. Deveria ter-se acostumado com os olhares, afinal, sempre morou em uma vitrine. Mas aquele garoto a fez sentir-se de modo diferente. Pela primeira vez, a pequena bailarina sentiu-se observadora, como se a vitrine fosse do pequeno rapaz, e não dela.

Ficaram nesse deslumbre mútuo, nesse silêncio raro, em que se dizem mais coisas do que em toda a vida, por isso, quando se despediram, também em silêncio, sentiram como se sentem as pessoas que se despedem depois de uma longa tarde de conversa.

O menino retornou no dia seguinte, e no outro, e no posterior. Mas, sempre que retornava, a lojinha estava fechada. Ficavam lá, se olhando, trocando confidências silenciosas por longos minutos, e despediam-se com um tímido sorriso. A pequena bailarina até colocou uma fita rosa nos cabelos, que conseguiu de uma das princesas que lhe dividiam a vitrine.

O garotinho continuava usando roupas pretas, mas já não estavam tão amassadas ou sujas – ele estava se cuidando também.

As visitas eram constantes e muito esperadas, por ambas as partes. Porém, um dia o garotinho não veio. Este dia se tornou semanas, que se tornaram meses. A pequena bailarina foi perdendo o brilho, o sorriso foi minguando. Todas as vezes que via um garotinho de preto seu coração saltava, mas logo tinha a impressão de que iria cair, ao perceber que foi apenas outro devaneio.

Depois de meses o menino retornou à loja. Trazia um saquinho nas mãos. Era a primeira vez que ia à loja enquanto aberta. Para infortúnio do pequeno rapaz, a bailarina já não estava na vitrine. Nunca sentiu dor tão parecida. Sentiu tudo se congelar, como quando se sobe uma escada no escuro, e se pisa em falso, achando que há outro degrau. Tentou conter as lágrimas, mas uma, contrariando o esforço do pobre mocinho, insistiu em cair pelo olho direito.

No outro dia, o menino retornou à loja, mas decidiu perguntar sobre a pequenina que lhe era tão importante. Foi aí que teve uma surpresa: ela não havia sido comprada, apenas a tiraram da vitrine, pois, não sabiam o porquê, mas ela havia perdido o brilho. Tinha sido posta em uma caixa no depósito, já que ninguém a compraria, e a moça não tinha coragem de se livrar dela.

O menino quase não conseguiu falar de tanta emoção. Tirou o saquinho do bolso e o pôs em cima do balcão, recuperou o fôlego e disse com um tom adulto e decidido: “Então eu vou ficar com ela!”. A moça tentou dizer que não estava à venda, que estava velha, mas ele não a ouviu. Explicou-lhe que havia trabalhado meses, vendendo jornais e rosas na pracinha, só para comprá-la. A moça se comoveu com o ímpeto do garoto. Viu nos olhos dele a importância da pequena dançarina. Então, foi até o depósito, limpou a poeira que se havia acumulado sobre a pequenina, e a entregou ao mocinho.

A bailarina mal pôde acreditar quando o viu. De início, assustou-se quando as mãos dele vieram em sua direção – achou que ele iria machucá-la. Entretanto ele a envolveu em um longo e carinhoso abraço. Como em um passe de mágica a pequenina recuperou toda a beleza e o brilho de outrora. A moça ficou tão emocionada com a cena que não pôde conter as lágrimas. O menino saiu saltitando com a bailarina no colo.

Chegando à beira da calçada, tiveram de esperar o sinal fechar. Então, ele a pôs no chão. Ela cambaleou um pouco, um medo tomou conta dela no mesmo instante, mas, como se pressentisse, o menino tomou-lhe a mão, como quem diz “Eu estou aqui para te proteger!”. Foi neste momento que uma enorme Van preta parou em frente a eles. Só então puderam ver o real motivo da atração, até então inexplicável. Através do reflexo puderam ver que eram iguais; um garoto e uma bailarina azuis. Jamais se viram em um espelho, ou coisa parecida, anteriormente. Sempre sentiram que se conheciam, mas nunca puderam explicar.

O sinal abriu. Eles contornaram a Van, ainda de mãos dadas. Ela não sabia para onde estava sendo levada, mas confiava plenamente nele. Pararam em frente à banca de jornal. Ela ficou estupefata por alguns segundos, pois agora via de perto o que sempre viu por toda a vida. Era um pouco diferente do que imaginava. As fotografias lhe chamavam a atenção. Mas o menino logo a puxou para contornar a pequena banca.

Tudo era novo e maravilhosamente belo no lugar em que estavam, principalmente para a bailarina. Ele a pegou no colo gentilmente. Em seguida, a pôs no balanço direito e a empurrou com toda a delicadeza que lhe foi possível. Depois, se sentou ao balanço de costume. Já não havia folhas no chão, mas flores por todos os lados. Mas se eram flores ou folhas, já não importava. Ele agora tinha uma companhia, e ela também. O resto era só cenário, uma mera complementação, nada mais.


(Também antigo, mas infinitamente precioso. A estória de um grande amor pra vida toda. =D)

3 comentários:

  1. "Pela primeira vez, a pequena bailarina sentiu-se observadora, como se a vitrine fosse do pequeno rapaz, e não dela."

    "A pequena bailarina até colocou uma fita rosa nos cabelos, que conseguiu de uma das princesas que lhe dividiam a vitrine."

    O texto todo é maravilhoso! Mas esses trechos são irresistíveis pra mim. Acho que só um grande amor mesmo pode embasar um texto como este! Sensacional!

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  2. agora estou sem tempo, mas logologo farei um comentário aqui! bjs

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  3. Singelo...

    e sincero...
    e despretencioso... e espontâneo.
    Como desejar chocolate naquele fim de tarde de dia frio que tem sol.

    Uma estória que virou história, né?
    =D

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